As conchas Moçambique se encontram escondidas na areia da praia entre as duas marés, é importante conhecer a qualidade da água do mar da sua origem.
Aconselho deixar elas descansarem por duas horas em água fria em quantidade e com sal - "dégorger", mexer regularmente para liberar a areia que elas contém.
O modo mais saboroso para aproveitar ao máximo seu frescor é o mais simples: escoar a água e juntar as conchas numa panela de inox ou vidro com tampa, levar ao fogo alto e após 5 minutos sacudir a panela para trazer as conchas abertas do fundo para cima até todas abrirem.
Está pronto!
Comer lambendo os dedos e os beiços!!!
O caldo que se encontra no fundo é delicado e saboroso, quando cansar do seu sabor natural ele pode ser incrementado com pimenta, salsinha, tomate e cebola picada, azeite ou manteiga, tudo colocado a frio, antes de colocar as conchas no fogo.
Teorias, pesquisas e reflexões sobre a gastronomia brasileira, por Quentin Geenen de Saint Maur
quinta-feira, 12 de setembro de 2013
quinta-feira, 29 de agosto de 2013
Em defesa do foie gras por Julien Mercier
Por Julien Mercier *
Confesso que fiquei surpreso ao tropeçar no projeto de lei do vereador Laércio Benko (PHS), que propõe a proibição da venda de foie gras em São Paulo para proteger os animais de maus-tratos. Se crueldade é o foco, a proibição deveria incluir o comércio de carne de frango de granja e bifes de animais abatidos e confinados irregularmente. Afinal, injetar doses cavalares de antibióticos em frangos para estimular seu crescimento, ou sacrificar bovinos que passaram a vida pisando em suas fezes, também é cruel.
Texto na íntegra no Paladar do 29/08/2013
domingo, 25 de agosto de 2013
Na dietoterapia chinesa, cada sabor tem uma função para o organismo
Por Laís Peterlini do UOL, em São Paulo
-
Para a medicina chinesa, cada alimento tem uma energia, capaz de gerar harmonia e até curar doenças
"Essa terapia propõe uma reeducação alimentar a partir de uma avaliação energética que leva em conta a rotina, a alimentação e os problemas de saúde que a pessoa apresenta", afirma a terapeuta Andrea Maciel Arantes.
De acordo com a dietoterapia chinesa, cada alimento tem uma energia, capaz de gerar harmonia, desintoxicar e até curar problemas do organismo.
Sabor e temperatura
Matéria na íntegra
quinta-feira, 22 de agosto de 2013
Engenho Mocotó
Caros amigos,
É com prazer que anunciamos nosso próximo
curso - Formação
e fruição do regionalismo culinário. Favor confirmar a inscrição para que
possamos utilizar da melhor maneira possível o espaço limitado de que dispomos
Ementa do curso
Uma maneira privilegiada de
se analisar a culinária e a gastronomia nos dias atuais é em relação aos
territórios onde surgiram. Terroirs, tradições, ingredientes - são
termos que reportam à proximidade com a terra e com o trabalho secular dos
produtores.
O curso mostrará a formação
dos conceitos de região culinária e de terroir como algo que se dá por
um processo complexo, no bojo do Estado moderno.
Será tomado como paradigma
moderno a evolução do “regionalismo culinário” na França desde a República
(1790) até a recente “gastronomização da cozinha regional”. Do mesmo modo, será
analisada a experiência brasileira de formação do regionalismo a partir de
Gilberto Freyre.
Por fim, uma reflexão sobre
a “cozinha internacional”, derivada da Alta Cozinha, e a recente “cozinha de
ingredientes” apontará problemas do desenraizamento culinário atual, incluindo
a tentativa de criação de uma cozinha regional transnacional: a cozinha
mediterrânea.
As aulas serão ilustradas
pela degustação de pratos regionais franceses que permitem a percepção de
“estilos” locais.
Professores
Carlos Alberto Dória - Doutor em sociologia,
diretor da ONG Centro de Cultura Culinária - C5, autor de livros de
cultura culinária como A formação da culinária brasileira, A
culinária materialistae Com unhas, dentes & cuca (em parceria
com Alex Atala).
Julien Mercier - Bacharel e pós-graduado pela Universidade Lycée
Hôtelier Savoie Léman em Thonon les Bains, França. Chefe executivo, com passagens pelo Cesar Park (São Paulo), Restaurant Carl
Gustaf (St Barthelemy); Sketch, por Pierre Gagnaire (Londres); La Pyramide
(Vienne). Atualmente é responsável, junto com Rodrigo Oliveira, pelas pesquisas
culinárias no Engenho Mocotó (Restaurante Mocotó).
Público alvo
Cozinheiros, estudantes de
pós-graduação em gastronomia, história, sociologia, antropologia, biologia e
agronomia; jornalistas e publicitários.
Carga horária:
6 horas
Organização básica
Curso dividido em 2 sessões
de três horas cada, com a seguinte programação:
1.discussão do conceito de
“nação” e “região”
2. discussão dos
pressupostos políticos, culturais e biológicos implicados na noção de terroir.
Exemplificações. A noção de terroir e a territorialização do vinho e
do queijo. A “volta ao terroir” e a revalorização da cozinha regional
como destino turístico pós-Guia Michelin.
2.Evolução da noção de
“cozinha étnica”: do colonialismo à gastronomização
3.A cuisine bourgeoise
e a cozinha internacional como conceitos modernos.
4.Desafios da cozinha de
ingredientes num mundo globalizado: o caso da Amazônia
Datas e horário
Datas: 14 e 21 de setembro
de 2013
Horário: das 9:45hs às
12:45hs.
Vagas e inscrições
O curso será ministrado para
uma turma de até 25 alunos, no Engenho Mocotó (Av. Nossa Senhora do
Loreto, nº 1.100 - Vila Medeiros), e a pré-inscrição deverá ser feitas pelo
e-mail: centroculturaculinariac5@gmail.com
O valor da inscrição é R$
340,00, incluindo as degustações ilustrativas, e o pagamento deverá ser feito
na primeira aula.
segunda-feira, 19 de agosto de 2013
Chef, acredite se puder, agora a responsabilidade das falcatruas no gasto do dinheiro público vem do nome estrangeiro dos produtos.
O governador do Ceará, Cid Gomes,
afirmou nesta segunda-feira (19) que vai retirar itens exóticos e
refinados do contrato milionário com um serviço de buffet. O caso gerou
polêmica após pronunciamento do deputado estadual Heitor Férrer (PDT)
que denunciou a “farra do caviar”, se referindo ao contrato de R$ 3,4
milhões para realizar serviços de decoração e alimentação em eventos de
recepção de autoridades no Ceará.
“Posso até tirar os práticos exóticos do buffet, aliás, vou fazer isso, se querem demagogia, vou mandar retirar coisas exóticas desse cardápio. Tudo o que for com nome francês, com nome inglês e com nome russo vai sair. Vai ficar só nome em português”, afirmou o governador após evento na capital cearense. Mas, segundo ele, a mudança não garante que o valor do contrato vai diminuir.
Texto na integra no G1
“Posso até tirar os práticos exóticos do buffet, aliás, vou fazer isso, se querem demagogia, vou mandar retirar coisas exóticas desse cardápio. Tudo o que for com nome francês, com nome inglês e com nome russo vai sair. Vai ficar só nome em português”, afirmou o governador após evento na capital cearense. Mas, segundo ele, a mudança não garante que o valor do contrato vai diminuir.
Texto na integra no G1
sábado, 10 de agosto de 2013
Brasília perde uma referência internacional na gastronomia e valorização dos ingredientes brasileiros com a desistência do Chef Simon Lau
Comunicado
à imprensa
O Restaurante Aquavit, a partir de 1
de agosto 2013,suspendeu o seu funcionamento, por tempo indeterminando, por dois
principais motivos.
Por razões administrativas, em função
da não votação, pela Assembleia Legislativa do Distrito Federal, da nova LUOS –
Lei de Uso e Ocupação do Solo que iria regulamentar a situação do funcionamento
do restaurante na área em que está localizado.
Por razões profissionais do Chef Simon
Lau, pois é chegada a hora de projetos novos que necessitam de tempo livre para
a sua concretização, hojesempre adiados em razão dos trabalhos cotidianos do
Aquavit.
Foram dezanos fantásticos, onde uma ideianasceu,
cresceu, frutificou e trouxe prêmios e reconhecimento para o restaurante, para
a nossa equipe de funcionários e para a gastronomia de Brasília.
Não temos como agradecer a todos os
clientes que fizeram o Aquavit chegar aonde chegou.
Também não temos como agradecer à
nossa equipe, cuja dedicação e talento foram fundamentais para o sucesso do
Aquavit e contamos com este competentíssimo teampara
o nosso novo empreendimento.
O sucesso traz consigo
responsabilidades, e somos conscientes da importânciaque assumimos para a nossa
cidade. Pela primeira vez,Brasília conseguiu ter um de seus estabelecimentos no
seleto grupo de restaurantes classificados com três estrelas pelo Guia Quatro
Rodas - apenas seis em todo o Brasil. Fomos crescendo, não em tamanho, mas em
estrelas ao longo dos anos. Um percurso caminhado na certeza de que fazíamos um
bom trabalho e que acrescentávamos algo a Brasília.
Participamos,
em 2012, de todo o processo de debates, assembleias, assessoria e audiências
públicas para a consolidação da proposta do governo para a nova LUOs. Nos
debates, conseguimos fazer compreender a posição dos pequenos empreendimentos
localizados na residência de seus proprietários. Nunca estivemos omissos.
Infelizmente, a retirada do projeto da pauta da Assembleia Legislativa frustrou
nossas expectativas.
Portanto, é
chegada a hora de encarar novos desafios. Hora de respirar o ar inspirador demudança,
realizando novas ideias, tornando reais outros sonhos, que ficaram à espera.
E esses sonhos
todos vão desaguar no nosso desejo de acrescentar novidades ao cenário
gastronômico da cidade.
Até lá.
A todos, muito
obrigado!
Restaurante
Aquavit
quarta-feira, 31 de julho de 2013
"DECLARAÇÃO DE CIDADÃ" enviada por Lucila Assumpção
Eu não fui às passeatas,
mas assisti empolgada e fui contaminada por elas, fui inspirada por sua brisa
alegre e fortalecida por sua força moral. Me senti mais viva, e de algum jeito
mais confirmada no que penso, me senti esperançada. Parecia que tudo tinha sido
zerado e de novo cada pessoa podia se re-posicionar com todo alcance da sua
vontade e o discernimento de sua postura moral. Ninguém realmente sabe onde
vamos, o que podemos alcançar, isso será decidido entre nós, pelo que queremos
viver e apostar juntos. Não é mais hora de esperar por salvadores, gurus ou
governos para virem solucionar todos nossos problemas, está em nossas mãos
opinar e participar das decisões sobre meu local, trazer o governo para a
praça, para a Polis – e melhor ainda trazer para a Ágora, aquela interface
entre a cozinha e o mercado, característica da Grécia antiga, onde aconteciam
as trocas, as conversas, as regulamentações, acertadas entre com(pão)nheiros,
aqueles que comem o pão juntos, que são os mesmos que vão sofrer as consequências
do que será decidido. Voltar ao LUGAR – ama-lo como nativo, defende-lo como
residente, cuidá-lo com todo engenho e sabedoria e reverenciá-lo com um sonho
consequência.
Sinto que o Brasil deveria
“fechar para balanço” e cada um fazer uma revisão de vida, de objetivos e se
re-posicionar numa nova ordem coletiva, nesse
processo evolucionário da consciência; em cada grupo a que pertenço
tenho vontade de rever os princípios, refinar o sonho e re-direcionar
o propósito comum; pois é um momento onde tudo se torna mais
possível. No limiar de uma nova civilização estamos entendendo mais claramente
que nossa intenção, nosso sonho, nosso desejo transforma o futuro, estamos
aprendendo a melhor intencionar o futuro conjunta mente.
A que tipo de coletivo
queremos pertencer?
Penso que podemos nos
espelhar na sabedoria ancestral da natureza onde cada célula, cada bactéria,
cada ser, cada sistema e até mesmo o planeta se auto regulam, se auto governam;
por muito tempo, temos relegado a outros nossas decisões e nosso destino. É
ilusão achar que o governo vai ser diferente e achar soluções mais harmônicas,
pois o governo é essencialmente adversarial, partidário, fiscalizador, não tem
intenção de ser solidário, integrador... porque somos governados, abdicamos da
tarefa de entender e decidir. O lugar não precisa de domínio, precisa de
cuidados, amor, presença, suor, alegria... Certamente, devemos achar a medida
certa que necessitamos de regulamentação global, que facilite a comunicação e
inter-relacionamento entre as culturas mas as soluções integradoras deverão ser
achadas momento a momento em cada local por aqueles que implementam e sofrem as
consequências das decisões; um equilíbrio entre auto-regulação e cooperação
numa ordem global que beneficie a todos.
Somos todos aprendizes
na tarefa de viver, o estado critico atual de nossa civilização demanda um
salto quântico de consciência se quisermos sobreviver e alcançar todo nosso
potencial. A natureza é bela, surpreendente, complexa, inclusiva, interligada,
regenerativa, se transforma a cada momento, sem deixar resíduos danosos, com
baixo custo, aproveitando com graça e economia tudo que chega do sol, e do
cosmos, para se transformar em água, abrigo, alimento, calor, iluminação,
divertimento. Precisamos tornar nossos cérebros mais parecidos com ela. Já
sabemos muito sobre as partes individuais. Nosso corpo é uma comunidade, tem 50
trilhões de células (todos cidadãos numa tremenda cooperação). Agora
precisamos urgentemente desenvolver o outro hemisfério cerebral, que vê
as relações entre as partes, aprecia o Todo, é mais simbólico e menos linear; é
poético e se apoia também na emoção para encontrar soluções mais
harmônicas e belas, na escala e ritmo certos apropriados para o local, para as
pessoas e todos os seres desse lugar. O masculino se apoia no comando e
controle, é mais focado na ação, se orienta pela analise das partes, é mais
competitivo e hierárquico; o feminino (até agora menos desenvolvido) é mais
solidário, mais holístico, mais ligado na emoção e apreende por inspeção do
todo. A mente que irá achar novas soluções deve equilibrar os dois hemisférios
cerebrais e aprender a usar o enorme poder do circulo que é a base do saber
sistêmico que permite perceber as partes influenciando o todo ao mesmo tempo em
que o todo está influenciando as partes; a grande magia de uma estrutura não
hierárquica com um centro vazio, esse espaço sagrado onde todas as visões podem
se encontrar.
Quero fazer,
mostrar e incentivar a arte, apostar no seu grande poder transformador, na sua
capacidade de gerar conhecimento de proporcionar um entendimento sentido,
isto é, incorporado pelos sentidos Acredito que a questão mais urgente é
trabalhar a nossa transformação humana, e a arte é um veiculo poderoso para a
transformação, em parte porque não é confrontacional, arte é sobre
beleza e transparência. Penso que será através da arte em todas suas formas que
iremos enriquecer o imaginário coletivo, cultivando a curiosidade para
apreender outras formas de entender o mundo que aumentam nossa percepção e recriam
um sonho mais complexo e integrador. E será através do ritual compartilhado em
círculos, que poderemos reforçar nosso desejo, o impulso voluntário que nos
mobiliza para ação.
Nós nos
desenvolvemos no espelho de companheiros que são nosso grupo de referencia,
cada pessoa deve se recolocar no seu grupo, onde compartilha a mesma visão, com
aqueles que estão no mesmo caminho de aperfeiçoamento. Com a sensação de
inclusão e pertencimento a um grupo talvez possamos vencer o medo antológico da
existência, que moldou a nossa civilização; acreditar que podemos fazer
diferente, apostar num design ecológico mais inteligente; alimentar uma
imaginação visionaria e uma intenção disciplinada; nos permitir arriscar sem
garantias, com toda nossa energia e conhecimento do momento e... oferecendo
voluntariamente um esforço extra pela beleza (é meu lema)!
“O coletivo
funciona num nível superior às capacidades dos indivíduos que o compõem.
O indivíduo participa da genialidade do coletivo e por essa
participação se torna também parte dessa genialidade – algo maior que ele mesmo
– sua exaltação resulta de sua participação, não a precede nem a força. O
milagre é em certo sentido interior. É o sujeito que é transformado pelo ritual
e para ele, portanto o mundo se transforma de acordo”, palavras sabias da
antropóloga Maya Deren.
Antes de criar as inovações
precisamos criar os inovadores; criar um ambiente certo, uma cultura certa para
inspirar as pessoas e potencializar sua mentes a atingir todo seu potencial.
Como verdadeira ambientalista, acredito que o ambiente físico, o clima mental,
a disposição psicológica e a vontade podem ser determinantes para o resultado
de qualquer encontro. Toda educação é educação ambiental. Através do
que é incluído ou excluído, aprendemos se somos parte ou estamos à parte do
mundo natural. A finalidade da educação não é mestria numa matéria, mas mestria
sobre a própria pessoa. O assunto-matéria é apenas a ferramenta.
Eu me
comprometo e gostaria de ajudar a criar espaços de aprendizagem e fruição, em
encontros coletivos, unindo o recreio e o ritual, a liberdade e o solene para
refinar a visão e seduzir o futuro a ser como imaginamos. Como Idries Shah, (Perfume
Scorpion), o mestre sufi, acredito que: “Você deve conceber possibilidades
além do seu estado atual se quiser ser capaz de achar as capacidades para
alcançá-las”.
E como David
Orr, (The Nature of Design), mestre do design ecológico, acredito que:
“Somos movidos a agir mais frequentemente, mais consistentemente e mais
profundamente pela experiência da beleza em todas suas formas, do que por
argumentos intelectuais, apelos abstratos ao dever, ou mesmo por medo”.
Quantidades nos contam sobre propriedades das partes; qualidades nos contam
sobre condições do todo. Buscamos refinar nossa percepção da beleza como
referencia de escala e ritmo para ajudar na busca de soluções justas.
Meu objetivo nesta reserva ecológica onde moro, meu
ninho de segurança, meu palco de atuação, minha oficina da imaginação e meu
templo de celebração, é facilitar o refinamento da nossa percepção através da
Beleza, nos ajudar a descobrir um sentido profundo através do dialogo em
círculos de encontro, para que possamos elevar nosso sonho coletivo e talvez
expressar junto uma visão mais significativa para o mundo atual que possa impulsionar
nossas ações a fazer a coisa certa. Aumentar a fascinação sobre o que
podemos fazer junto se re-encantarmos nossos sonhos para produzir uma sabedoria
que ninguém em particular pode saber, mas pode somente acontecer no seio de um
grupo, que se reúne ritualisticamente na tarefa de conhecer a si mesmo e
fertilizar nosso sonho de humanidade.
sábado, 6 de julho de 2013
quinta-feira, 4 de julho de 2013
Prova de caráter
Entrevista: François Simon, colunista gastronômico
Cíntia Bertolino - Paladar
Há duas semanas, o crítico francês François Simon assumiu um dos tantos riscos que surgem na vida: pediu demissão do jornal Le Figaro. Por 26 anos, ele comandou a crítica gastronômica do jornal, sem nunca aparecer em fotos, e angariou a reputação de crítico mais influente do mundo.
Há duas semanas, o crítico francês François Simon assumiu um dos tantos riscos que surgem na vida: pediu demissão do jornal Le Figaro. Por 26 anos, ele comandou a crítica gastronômica do jornal, sem nunca aparecer em fotos, e angariou a reputação de crítico mais influente do mundo.
Impecavelmente bem escritas, ora impiedosas, suas críticas têm a capacidade de demolir ou elevar um restaurante (não foi à toa que Simon serviu de inspiração para Anton Ego, o crítico mordaz do filme Ratatouille).Afeito à polêmicas, ele vem criticando há anos os critérios do Guia Michelin e os modismos gastronômicos: “Cozinha é como rock’n’roll, um chef lança um hit que será copiado até a moda mudar”, diz. Longe do Figaro, Simon pretende se dedicar mais à literatura, sem deixar de lado a comida. “Estou com 60 anos. Existe a crença de que quando alguém chega a essa idade, ocorra um renascimento. Estou me sentindo assim”, afirma. Ele falou com o Paladar de Gênova, Itália, pouco antes de embarcar em uma viagem de barco pelo Mediterrâneo.
Por que deixar o Le Figaro?
Precisei de coragem, mas sentia que meu tempo lá já tinha passado. Tinha que mudar. Afinal, 26 anos não é pouca coisa. O trabalho continua ótimo, perfeito, na verdade. Mas sentia que o charme havia diminuído consideravelmente. Entende o que digo?
Precisei de coragem, mas sentia que meu tempo lá já tinha passado. Tinha que mudar. Afinal, 26 anos não é pouca coisa. O trabalho continua ótimo, perfeito, na verdade. Mas sentia que o charme havia diminuído consideravelmente. Entende o que digo?
Não, explique melhor.
Quando falo de charme, falo de encantamento, excitação. Claro que também havia um componente de degaste natural. Então, optei por partir. Ainda que esse continue sendo o melhor emprego do mundo.
Quando falo de charme, falo de encantamento, excitação. Claro que também havia um componente de degaste natural. Então, optei por partir. Ainda que esse continue sendo o melhor emprego do mundo.
Sua saída pode ser lida como um fastio de restaurantes?
Não estou cansando de restaurantes. Mas restaurantes não são minha paixão. Não me importam verdadeiramente. O mesmo vale para comida.
Não estou cansando de restaurantes. Mas restaurantes não são minha paixão. Não me importam verdadeiramente. O mesmo vale para comida.
Curioso, vindo de um dos críticos gastronômicos mais influentes do mundo…
Mas não há contradição. A paixão me tornaria fraco. É preciso certo distanciamento para poder falar sobre comida com tranquilidade. O mesmo vale para chefs. Não é preciso ser amigo de cozinheiros.
Mas não há contradição. A paixão me tornaria fraco. É preciso certo distanciamento para poder falar sobre comida com tranquilidade. O mesmo vale para chefs. Não é preciso ser amigo de cozinheiros.
A crítica de restaurante continua relevante?
Acho que a crítica está muito amiga dos chefs. E o reflexo está no prato: a comida não anda lá muito interessante. Boas críticas ajudam a construir bons chefs. Hoje, no geral, a crítica está muito gentil, muito próxima da cozinha. Chefs não precisam de amigos para progredir e crescer, precisam de um olhar frio e crítico que lhes diga objetivamente: “Desculpe-me, esse prato pode até ser bonito, mas não é nada bom”.
Acho que a crítica está muito amiga dos chefs. E o reflexo está no prato: a comida não anda lá muito interessante. Boas críticas ajudam a construir bons chefs. Hoje, no geral, a crítica está muito gentil, muito próxima da cozinha. Chefs não precisam de amigos para progredir e crescer, precisam de um olhar frio e crítico que lhes diga objetivamente: “Desculpe-me, esse prato pode até ser bonito, mas não é nada bom”.
Qual seu balanço desses anos todos no Figaro?
Foi realmente fantástico, um emprego formidável, fui para a China, escrevi sobre o nada. Em suma: fazia o que queria, ia para onde queria. Era tratado como uma princesa. Mas, você sabe, princesas também costumam se entediar espetacularmente. E agora que estou envelhecendo, não quero perder o charme, não quero ficar aborrecido, quero voltar a assumir riscos.
Foi realmente fantástico, um emprego formidável, fui para a China, escrevi sobre o nada. Em suma: fazia o que queria, ia para onde queria. Era tratado como uma princesa. Mas, você sabe, princesas também costumam se entediar espetacularmente. E agora que estou envelhecendo, não quero perder o charme, não quero ficar aborrecido, quero voltar a assumir riscos.
Sair da zona de conforto?
Sim, e tem funcionado. Foi uma temeridade tomar essa decisão, mas acho que era o momento de ser humilde; de voltar a bater em portas, esperar, ansiosamente, que o telefone toque. Quero voltar a escrever com energia renovada, com mais paixão.
Sim, e tem funcionado. Foi uma temeridade tomar essa decisão, mas acho que era o momento de ser humilde; de voltar a bater em portas, esperar, ansiosamente, que o telefone toque. Quero voltar a escrever com energia renovada, com mais paixão.
Foi difícil tomar essa decisão?
Senti que era algo que deveria fazer. Durante muito tempo fui um homem prudente. Fui bem-sucedido em diversas coisas, mas tenho alguns arrependimentos. Um deles é o de ter sido cauteloso demais em algumas ocasiões em que deveria ter sido mais ousado.
Senti que era algo que deveria fazer. Durante muito tempo fui um homem prudente. Fui bem-sucedido em diversas coisas, mas tenho alguns arrependimentos. Um deles é o de ter sido cauteloso demais em algumas ocasiões em que deveria ter sido mais ousado.
Quais são seus planos?
Acabei de acertar uma participação em um programa de TV muito popular, Paris Dernière (do canal Paris Première, criado e produzido por Thierry Ardisson, no ar desde 1995). Será uma atração semanal de uma hora. Meu trabalho será rodar Paris de carro, de uma festa a outra, encontrar e entrevistar escritores, artistas, um bocado de gente diferente. Estou bem empolgado.
Acabei de acertar uma participação em um programa de TV muito popular, Paris Dernière (do canal Paris Première, criado e produzido por Thierry Ardisson, no ar desde 1995). Será uma atração semanal de uma hora. Meu trabalho será rodar Paris de carro, de uma festa a outra, encontrar e entrevistar escritores, artistas, um bocado de gente diferente. Estou bem empolgado.
Fica até quando no Figaro?
É provável que eu saia antes do fim do ano, porque já recebi propostas da Vanity Fair e da revista semanal Le Point. Ambas as publicações me interessam. Quando tomei essa decisão, estava bem assustado, foi um grande risco para mim. Fiquei preocupado em não encontrar algo para fazer. Queria deixar o trabalho de modo tranquilo, suavemente. Felizmente, agora sinto que posso.
É provável que eu saia antes do fim do ano, porque já recebi propostas da Vanity Fair e da revista semanal Le Point. Ambas as publicações me interessam. Quando tomei essa decisão, estava bem assustado, foi um grande risco para mim. Fiquei preocupado em não encontrar algo para fazer. Queria deixar o trabalho de modo tranquilo, suavemente. Felizmente, agora sinto que posso.
Como foi a repercussão?
Começaram a achar que estava ficando louco. O que agora faz de mim uma pessoa bem excitante (risos). Afinal, você tem 60 anos, um bom emprego, um bom salário, tem prestígio… Não precisa correr risco algum. Meu trabalho tem tantas vantagens que a decisão sábia teria sido continuar. Mas continuar não teria me deixado feliz.
Começaram a achar que estava ficando louco. O que agora faz de mim uma pessoa bem excitante (risos). Afinal, você tem 60 anos, um bom emprego, um bom salário, tem prestígio… Não precisa correr risco algum. Meu trabalho tem tantas vantagens que a decisão sábia teria sido continuar. Mas continuar não teria me deixado feliz.
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